carta_02_julho.2025

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em algumas manhãs desse mês
acordamos com o chão coberto pela geada –
branquinha, branquinha

espero que ela seja acompanhada de alguns frutos,

os pessegueiros já florescem
daqui a pouco será a vez das ameixeiras,
laranjeiras, pereiras, amoreiras…

as bananeiras se foram,
será que retornarão?

Me pergunto: qual a importância dos materiais no fazer arte e artesanato hoje?

Lendo o livro: Kama kara mita yakimono (a cerâmica vista a partir do forno), percebi que muitas comunidades de ceramistas no Japão se instalaram perto do local onde coletavam argila. O forno, por sua vez, também não poderia ser construído muito longe, geralmente ficava próximo às montanhas, à fonte do barro. A dificuldade em transportar materiais pesados ajudou a moldar essa relação de proximidade.

Aqui nas Américas, o barro também foi (e ainda é) amplamente coletado para a produção de cerâmica, tijolos e tantas outras coisas. A argila é abundante por aqui. Ainda assim, hoje é mais fácil e comum comprar uma argila que vem da indústria, extraída em diversos lugares, transformada em uma massa cerâmica, embalada, homogênea, segura, consistente, pronta para ser usada e queimada. 

Esse questionamento surgiu durante a discussão do cap 4 do livro: Folk Art Potters of Japan – Beyond na Anthropology of aesthesics, do antropólogo inglês Brian Moeran. Discutida no GEAS – Grupo de Arte e Sociedade. O texto aponta como o barro e o modo de preparo dele influenciam diretamente o ritmo da comunidade. E me pergunto, atualmente, como a argila comprada afeta o ritmo da produção de cerâmica?

Essa pergunta puxa outras. Sempre admirei quem trabalha com argila coletada. Mas, em um dado momento, decidi que não era a hora para mim. Uso argila e cinzas coletadas nos esmaltes e engobes. Tenho algumas justificativas, a primeira é a falta de conhecimento. A segunda, a ausência de equipamentos de preparar a argila. Terceiro, por medo: medo de que a argila derreta no forno e danifique o equipamento, medo de não sinterizar (se a argila não sinteriza, ela fica porosa e retém líquidos). A quarta é mais intuitiva: sinto que o forno a lenha dá vida à argila coletada – e, sem ele, algo se perde.

Há também uma resposta mais coletiva: aqui, onde estou, não há herança cultural viva da coleta de argila. Ela existia, mas, como sabemos, os povos originários que detinham esse saber foram expulsos, silenciados, mortos desde os tempos da colonização e seguem sendo ameaçados até hoje.

Quais seriam, afinal, os motivos para usar argila coletada? Apenas uma escolha estética? Sustentável?

Aqui, empresto o desejo de Nego Bispo: desejo de se relacionar, na poética de se relacionar com a terra. Estar junto.
A argila coletada pode contar a história desse território. E, ao não coletá-la, sinto que estou perdendo a chance de conhecer a história a partir do barro. Perdendo a chance de me relacionar com o território a partir do barro.

Fazer o próprio material é complexo. Muitas vezes, outras pessoas são responsáveis por essa parte, um trabalho que quase sempre é invisibilizado. Assim como cortadores de lenha… Essas práticas eram viáveis porque existia coletividade. Mas como fazer algo assim sem uma coletividade em torno?

Além disso, no Brasil há uma grande preocupação com a sinterização da argila. Isso também me impediu, por ora, de tentar preparar a minha. Mas nem sempre foi assim. Nossas argilas ricas em ferro não precisam sinterizar — e talvez devêssemos acolher essa característica. Como a Talita trouxe no grupo: porque não abraçar essa “não sinterização” e, com ela, criar outros caminhos, outros encontros.

Quero conhecer o que está perto.

Saber mais sobre a origem dos materiais que usamos, sobre seus processos, e contar histórias a partir deles. Nosso solo, tão antigo, é também profundamente potente.
Quem sabe um giro decolonial nessa prática? São ideias… que espero poder colocar em prática.

Estar-com-a-terra.

Agradeço aos geólogos Ruvi e Maci pelo campo!

No fim do mês, estive em Curitiba para participar do festival: Pan-cinema, que este ano teve como foco o Japão. Fui ajudar na tradução e participei da oficina Cinema Abstrato 3D: imagem e música artesanal, com Takashi Makino. Durante a oficina, ele compartilhou seu processo artístico e sua forma de comunicação com o público. Pude aprender mias sobre uma abordagem analógica do cinema. Foi incrível. Os trabalhos finais da oficina… ficaram bons demais.

Receita do mês: ravioli com recheio de brócolis e tofu

numa conversa aleatória, num bar no Japão, percebi o quanto a comida é importante por aqui. não nomeamos como eles as receitas – a gente explica, saboreia, se reúne em volta do fogão, da mesa.  cozinhar junto é cuidar junto.
no final do mês nos reunimos com nossos amigos Débora e Fábio para fazer algo que amamos muito: cozinhar.
A receita desse mês nasceu desse encontro.
de manhã passei na feira Quintal, em São Bento do Sul, onde comprei alimentos da agricultura familiar da região – agroecológicos e orgânicos.

A massa:

Usamos a receita da massa do livro: Todas as sextas-feiras, de Paola Carocella, https://paolacarosella.com.br/receitas/ravioli-de-espinafre-ricota-manteiga-e-salvia/

O recheio para ravioli: brócolis com tofu

. brócolis (usamos apenas as flores – o restante foi para outras receitas)
. tofu
. sal
. manteiga e banha de porco para finalizar


Essa é uma receita bem simples.
Picamos bem fininho só as flores do brócolis.
Deixamos o tofu escorrendo numa peneira por um tempo para perder parte da água.
Depois, amassamos com as mãos até ele se desfazer, lembrando ricota.

Misturamos os dois ingredientes na panela e deixamos refogar até o tofu ficar mais sequinho. Finalizamos com sal e pimenta – mas você pode usar os temperos que quiser.

Montamos os raviólis, cozinhamos por alguns minutos em água fervente, e então finalizamos com uma colher de manteiga e uma colher de banha de porco. Aqui, também dá para adicionar algumas especiarias – a gosto.

Calendário:
3ª Festa das Sementes Crioulas de Piên
10 de setembro de 2025
A partir das 12h
📍Salão da igreja da Campina dos Crispins, ao lado da Escola do Campo Santa Isabel Neste ano, a programação será especialmente dedicada às crianças da escola, com oficinas e outras atividades. Em breve, vamos divulgar mais detalhes.
Informações: (48) 99801-8311 (41) 99968-8358

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2 respostas para “carta_02_julho.2025”

  1. Avatar de Marina Granato
    Marina Granato

    Do começo dessa carta até o fim, ecoou na minha cabeça a expressão mais potente de vocês: estar-com-a-terra e, depois dessa leitura maravilhosa, vejo que vocês também expressam no modo de viver de vocês o ser-com-a-terra.
    Vocês estão e são com a terra. Voces sao como alguns cogumelos, adaptáveis a diversos ambientes, mas cujos micelios proliferam, criam conexões mais fortes e frutíferas em condições propicias oferecidas pela terra.
    A vida campesina, a dedicação à agroecologia, à vida próxima à natureza de forma geral, que vocês têm nos ensinam como ser-com-a-terra, além de estar, é o auge da vida moderna. Digo auge porque eu acredito que a melhor coisa que podemos fazer no caos que estamos imersos na atualidade – para a sanidade individual e coletiva – é o Êxodo urbano. A volta e aproximação à natureza, ao mato. Acho que chegamos num ponto de saturação da urbanidade e sempre que saturamos, tendemos a ir em direção ao extremo oposto – estar-com-a-terra.
    Desculpe as divagações, amigues, mas essa leitura mensal da Estufa Cultural sempre me provoca reflexões interessantes. Assim como nossas conversas periódicas – que saudade já de trocar ideias com vcs.
    Mais uma vez, queria parabenizá-los pelos projetos! Sempre um sopro de esperança ver a atuação de vcs em frentes tão importantes para a (r)existencia cultural.
    Se me permitem mais uma analogia ao reino fungi (a produção de cogumelos na Estufa realmente me deixou em êxtase)…
    Alguns esporos, apenas, são capazes de fazer crescer diversos cogumelos. E, com uma busca rápida na internet, me lembrei que os esporos são geralmente resistentes a condições ambientais adversas e podem sobreviver por longos períodos até germinarem. Assim como vocês atuando à frente da Estufa Cultural: mesmo com as condições adversas para a produção cultural, agroecologica, ativista e até mesmo acadêmica, vocês seguem resilientes e todas as sementes que estao plantando irão germinar! 
    Queria tanto escrever mais sobre as reflexões que tive a partir dessa leitura, mas vou deixar para falar mais no nosso próximo encontro “em pessoa”, ainda que seja virtual.
    Obrigada por essa carta, amigues! Amo vcs.

  2. Avatar de Carlos
    Carlos

    As cartas da estufa me trazem a nostalgia da internet escrita, que quase nem existe mais; Aquela que informava sobre o que se passava d’outro lado do mundo, mas sem exageros, sem urgência. Era o tempo da absorção reflexiva, onde cada palavra postada carregava pensamento, pausa e intenção.