Ivan Gomes e Liliana Morais
1º de março de 2026
[texto traduzido da publicação realizada na Revista Garland, em março de 2026]

Guiados pela contadora de histórias Sachiko Takamuro, o antropólogo Ivan Gomes e a pesquisadora de artesanato Liliana Morais exploram a relação profundamente enraizada entre a comunidade de Keihoku e o urushi-no-ki(a árvore da laca japonesa).
A primavera já havia chegado a Kyoto, mas as flores de sakura ainda não haviam tomado a paisagem. Envoltos em camadas de roupa para encarar o frio de final de inverno, embarcamos no ônibus na Estação de Kyoto em direção a Keihoku, cerca de trinta quilômetros ao norte do ponto inicial do nosso encontro. Durante o trajeto, a conversa se dispersou por alguns temas até se fixar na visita de campo aos projetos Forest of Craft e Fab Village Keihoku, iniciativas da empresa PERSPECTIVE. O dia seria conduzido por uma de suas fundadoras, Sachiko Takamuro (anteriormente Matsuyama), que se mudou para Kyoto há mais de uma década para se dedicar a contar histórias sobre o artesanato local.
À medida que nos afastávamos da região metropolitana de Kyoto e nos aproximávamos de Keihoku, a monocultura florestal passava a dominar a paisagem. Entre árvores, conversas e vislumbres do rio Katsura, o percurso se desenrolou rapidamente. Logo descemos do ônibus para encontrar nossa anfitriã, que nos recebeu com serenidade e nos ofereceu uma leitura densa e precisa da complexa história ambiental, política e cultural da região.
Antiga cidade independente e segunda maior da província de Kyoto, Keihoku foi incorporada ao processo de fusões municipais de 2005 (shichōson gappei), uma política voltada a enfrentar o declínio populacional. Sob o argumento de uma governança mais “eficiente”, esse processo acabou por nivelar diferenças e identidades locais, dificultando formas de decisão autônoma. Embora hoje integre o distrito de Ukyo, cerca de 90% do território permanece coberto por florestas – uma atividade que remonta ao século VIII, quando a madeira de Keihoku abastecia a capital imperial. Antes das políticas de reflorestamento do pós-guerra, que redesenharam a paisagem por meio das monoculturas de cedro e cipreste que hoje predominam, os troncos eram transportados pelo rio Katsura em longas jangadas. Hoje, porém, o curso do rio sofre com a redução do fluxo de água, em decorrência da construção de barragens e outras infraestruturas.

Conhecida por seus invernos rigorosos e nevados, Keihoku também é reconhecida pelo nattō [grãos de soja fermentados], pela abundância de água que sustentou uma florescente produção de saquê e uma rica cultura de tingimento, e pelas casas de telhado de palha (kayabuki minka). Esse conjunto tem atraído, há décadas, moradores urbanos – entre eles artistas e artesãos – que se deslocam para a região em busca de formas de vida que escapem às trajetórias corporativas consolidadas. Ainda assim, o despovoamento avança: de 6.362 habitantes em 2003 para menos de 4.000 em 2025.
Após essa introdução, seguimos com Sachiko em seu carro até a primeira parada: a base dos projetos Forest of Craft e Fab Village Keihoku. Ao entrar na kominka de cerca de 150 anos (casas de arquitetura tradicional de Kyoto e região), encontramos a chef Raica Toyama preparando uma refeição tradicional japonesa para participantes de um workshop vindos da cidade de Kyoto. Raica se mudou de Tóquio para Keihoku para aprofundar sua prática culinária em relação direta com as tradições locais e com a paisagem. A precisão de seus gestos revelava um zelo silencioso, no qual ação e palavra pareciam coincidir sem esforço – algo que, inevitavelmente, despertou nosso apetite. Embora não tenhamos participado do banquete, levamos conosco uma garrafa de molho de soja fermentado pela própria Raica.


Ao lado da casa, encontra-se o ateliê onde pranchas de surfe de madeira são esculpidas em paulownia ou cedro e finalizadas com urushi (laca japonesa). A produção dessas pranchas integra um conjunto mais amplo de práticas vinculadas ao cultivo e à conservação da árvore urushi-no-ki [漆の木] (Toxicodendron vernicifluum), um dos eixos do projeto. A árvore produz uma seiva pegajosa e altamente alergênica, utilizada há milhares de anos no Japão, sobretudo como verniz para proteger e dar acabamento a objetos de madeira. Quando combinada com óxidos vermelhos ou pretos, resulta em superfícies brilhantes, naturalmente antibacterianas, fáceis de limpar e altamente duráveis.
Enquanto observávamos as pranchas recobertas de urushi (vale lembrar que o material original das pranchas alaia no Havaí – onde o surfe foi inventado – era a madeira), Sachiko descreveu o processo intensivo de extração da seiva, realizado por artesãos altamente especializados. Cada incisão na árvore produz cerca de um grama de material, totalizando aproximadamente duzentos gramas após quatro meses de trabalho, realizados exclusivamente no verão. Após esse período, a árvore precisa descansar por pelo menos dez anos antes de poder ser novamente explorada. Embora muitas sejam derrubadas após uma única temporada de extração, isso não necessariamente encerra seu ciclo de vida: novos brotos frequentemente emergem do mesmo sistema radicular e são cultivados por mais 10 a 15 anos antes de uma nova extração.

Ao mesmo tempo, obter urushi japonês autêntico tem se tornado cada vez mais difícil. Ao nos deslocarmos da antiga kominka para um antigo campo de golfe abandonado – hoje transformado em uma floresta comunitária onde os responsáveis pelo projeto, junto com moradores e visitantes, plantaram mais de duzentas árvores de urushi – Sachiko nos apresentou as múltiplas camadas históricas que envolvem o manejo dessa árvore no Japão. Embora sejam classificadas como a mesma espécie, as árvores japonesas apresentam diferenças genéticas em relação às do continente chinês. Além do crescimento mais difícil no Japão, o urushi japonês possui maior concentração de urushiol, o que torna a seiva mais forte e mais brilhante. Somado ao longo tempo de crescimento e à baixa produtividade, o deslocamento do trabalho rural para setores urbanos ao longo do último século contribuiu para o declínio do cultivo e da extração do urushi. Esse processo, aliado à ampla disponibilidade de materiais sintéticos como o plástico, transformou o urushi de uma prática enraizada e difundida em um item de luxo.
Nesse contexto, o cultivo e o cuidado com o urushi-no-ki emergem como uma metáfora potente para os esforços contemporâneos de sustentar práticas artesanais e, com elas, as éticas de vida que se desdobram nas relações entre humanos, árvores, seiva e fazer. Plantar urushi-no-ki e produzir pranchas recobertas de urushi pertencem, assim, a um mesmo regime de práticas que busca manter vivas técnicas ancestrais e modos de relação com a paisagem, a comunidade e a vida. Ao mesmo tempo, essas iniciativas tornam visíveis as interdependências entre cultivar e fazer, evidenciando que a continuidade das tradições artesanais depende de um cuidado atento com os materiais – um cuidado inseparável da atenção à paisagem, ao ambiente e aos modos de vida que historicamente se constituíram em um delicado equilíbrio da dinâmica natureza-cultura, como no caso do sistema satoyama.
É justamente essa combinação entre plantar, fazer e cuidar – isto é, esse ecossistema ampliado do artesanato – que constitui o eixo dessas iniciativas, mesmo diante das restrições impostas pelas condições econômicas atuais. Questões como o despovoamento e a escassez de alternativas de subsistência, em um contexto dominado por cadeias produtivas capitalistas, moldam profundamente o cenário de regiões como Keihoku. Nesse contexto, os projetos Forest of Craft e Fab Village Keihoku se propõem a cultivar uma imaginação prática capaz de sustentar não apenas o urushi-no-ki, mas também formas de permanecer e viver nesse ambiente ecologicamente e economicamente adverso.
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Antes do almoço, Sachiko nos levou a um pátio madeireiro onde pudemos observar uma das atividades históricas de Keihoku: a produção de madeira em monocultura voltada à construção civil, hoje em declínio diante das importações baratas e da queda dos preços. Apesar da organização e da austeridade do espaço – bastante diferentes dos pátios madeireiros brasileiros –, o ambiente era atravessado por uma lógica familiar, claramente moldada por uma visão de mundo distinta daquela que orienta os projetos que visitávamos. Embora reconheçam a importância histórica do cedro monocultivado para a identidade local, as iniciativas Forest of Craft e Fab Village Keihoku propõem outro horizonte: um ecossistema circular baseado em cultivar, fazer e reparar, capaz de sustentar, no futuro, uma cultura local fundada na interdependência entre o manejo das árvores e o trabalho com a madeira.

Por fim, visitamos o Fab Village Keihoku, um ateliê coletivo instalado em uma antiga escola desativada em 2021. Após receber apoio da Fundação Toyota, os responsáveis pelo projeto adquiriram um conjunto de máquinas provenientes de um estúdio próximo especializado na produção de tabuleiros de igo e shogi, que também havia encerrado suas atividades. O espaço tornou-se, desde então, um lugar de circulação de materiais e de compartilhamento do saber-fazer. Ali, tivemos a oportunidade de conhecer o artesão de quarta geração em urushi e co-líder do projeto, Takuya Tatsumi, que conduzia um grupo de visitantes estrangeiros em um workshop de uma semana de kintsugi, técnica de reparo de cerâmica com ouro e urushi.
Além desses projetos, a PERSPECTIVE desenvolve iniciativas como residências artísticas, turismo de base comunitária e atividades educativas voltadas a conectar artistas, estudantes e visitantes a detentores de saberes locais por meio de narrativas situadas. A parceria com o Ethnography Lab da Universidade de Osaka, dedicado a investigar as relações entre natureza, artesanato e vida cotidiana, reforça o papel da pesquisa como fundamento dessas iniciativas. Tratam-se de esforços que buscam não apenas alimentar a imaginação para outras formas de habitar o campo, mas também tornar esses projetos material e politicamente sustentáveis.

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No meio da tarde, Sachiko nos levou de volta ao ponto de ônibus onde havíamos nos encontrado. Agradecemos sua generosidade e nos despedimos. Em busca de abrigo do vento frio que persistia apesar do céu ensolarado, nos refugiamos em um pequeno mercado local, repleto de alimentos frescos e objetos artesanais. Pouco depois, embarcamos no ônibus de volta a Kyoto – pontual, como esperado. No retorno, a paisagem que víamos pela janela já nos parecia um pouco mais familiar, atravessada pelas narrativas de Sachiko e pelas caminhadas que havíamos feito por aquele território marcado por transformações.
Em nossa conversa, compartilhamos uma sensação comum: a de que as paisagens e os ecossistemas nos quais iniciativas como Forest of Craft e Fab Village Keihoku se inserem são tão frágeis quanto crisálidas diante dos ventos que antecedem uma tempestade. Por mais que guardem em seu interior a metamorfose que dá asas à lagarta, o campo de forças que as envolve parece operar menos em favor de seu florescimento do que de sua desintegração. Cabe a pessoas como Sachiko Takamuro, Takuya Tatsumi e seus parceiros sustentar esse processo – proteger as crisálidas e criar condições para que as borboletas emerjam. Na esperança de que o bater de suas asas possa, quem sabe, produzir ventos que soprem em outra direção – ou, ao menos, que seu contato com as flores seja suficiente para polinizar outras paisagens e fazer surgir novos frutos. Ao mesmo tempo, as realidades de regiões rurais como Keihoku, em diferentes partes do Japão, evidenciam como políticas neoliberais e desenvolvimentistas que emanam dos centros de poder – como o recente e pouco debatido projeto de extensão da linha do trem-bala Hokuriku atravessando a região – deslocam o peso da sobrevivência para aqueles que habitam e cuidam dessas paisagens: novos moradores, artistas e artesãos que, de diferentes maneiras, se empenham em mantê-las vivas.

Agradecimentos
Gostaríamos de expressar nossa sincera gratidão a Sachiko Takamuro, fundadora e diretora do Forest of Craft, por sua orientação e colaboração.