carta_03_agosto.2025

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agricultura e cerâmica: são atividades que conversam?
por aqui, seguimos tentamos unir as práticas

a terra nos presenteia de diversas formas
um dos nossos objetivos é resgatar um tempo anterior à cisão entre arte e utilidade

quando cerâmica e alimento vinham das mesmas mãos

será possível? é um caminho a percorrer

desejo unir modelagem, queima e culinária como prática de resistência, memória e celebração.

nesse último mês, voltei aos estudos com mais intensidade
me dedicando especialmente ao estudo do solo –  em diferentes frentes, seja pensando tanto na agricultura quanto na cerâmica
para isso, tenho lido dois livros:

– Manual do Solo Vivo, de Ana Primavesi
– Wild Clay : Creating Ceramics and Glazes from Natural and Found Resources, escrito por Matt Levy, Takuro Shibata e Hitomi Shibata

fiz o teste da argila coletada mês passado com o Ruvi e o Maci – e ela não fundiu!
fiquei muito feliz com isso, pois tinha medo de que ela derretesse, mas isso fez eu aprender mais sobre o local onde coletei a argila.

Quando a gente encontra uma argila, é importante se perguntar:
quem é a rocha-mãe?
é ela quem nos dá pistas sobre as características do barro que está ali ao lado, essa argila foi coletada próxima a uma pedreira de serpentinito, encontrada aqui em Piên nas duas Campinas. nos bairros da Campina dos Crispins e Campina dos Maia. campina é um tipo de ambiente sem árvores, de vegetação é baixa e rasteira – um campo
nesses dois bairros brotam essas duas pedreiras, de serpentinito. a vegetação nessa área é bem diferente do restante da região, ali há também uma grande diversidade de plantas e animais.

serpentinito é rico em magnésio, e no local da coleta, também achamos talco (que é rico em magnésio), um mineral que muitas vezes é adicionado à massa cerâmica para dar resistência ao choque térmico – especialmente em queimas como a de raku. Costumo adicionar uma porcentagem de talco na massa, mas agora, ao invés de talco, vou testar essa argila coletada
 
também estou curiosa para saber se ela funde a 1300 graus

aliás, o pó dessa rocha também é usado na agricultura, para aumentar os níveis de magnésio no solo

e para terminar: pintei a parede do ateliê com barro coletado, rico em ferro, lindo lindo.

receita do mês: tinta de barro!

dessa vez, a receita envolve argila

Ingredientes:
• barro coletado
• 10% de cola de amido (% em referência ao barro)
• água até dar o ponto (a textura da parede vai influenciar na quantidade de água)

⸻ Passo 1: fazendo a cola de amido
Aprendi a fazer essa cola quando andava colando uns lambes por aí. você pode usar amido de milho, araruta, polvilho doce ou azedo — o que tiver em casa.
• ¼ xícara de amido
• ¼ xícara de água em temperatura ambiente (para dissolver o amido)
• ¾ xícara de água fervente
• 1 colher de vinagre

Ferva os ¾ de xícara de água. Enquanto isso, dissolva o amido na água fria. Com o amido diluído, adicione à água fervente e mexa por cerca de 5 minutos em fogo baixo. Depois, adicione o vinagre. Deixe esfriar antes de guardar num pote. Na geladeira, dura até 15 dias.

⸻ Passo 2: preparando a mistura de barro
• Coletar o barro
• Secar completamente
• Peneirar
• Adicionar água aos poucos, até formar uma pasta
• Adicionar a cola de amido (10%) e misturar bem

ao invés de amido, você também pode usar cola branca, mas a cola de amido tem seu charme — é uma receita que tudo vem da terra. Uma mistura de roça com argila 🙂

as proporções? Eu vario muitas vezes por aqui, faço receitas como minha vó: no olho. e depois vou ajustando.

Comecei também outro processo: fermentação com palma

iniciei o processo de mucilagem com palma

ela foi colhida aqui no quintal de casa — plantei há uns 3 anos com meu avô. cortei em pedaços e coloquei num baldão com água, e estou deixando fermentar pelos próximos dias.

depois da fermentação, a mucilagem vai ser usada no embarreamento de um forno: ela vai dar a liga, fazer as partículas se entenderem, se conhecerem, pra então todo mundo, junto e misturado, virar um forno.

E pra que serve a mucilagem de palma?
pelas minhas pesquisas, ela pode ser usada na tinta das paredes, junto com a cola de amido, pra dar mais resistência à água;
ela deixa a argila mais gorda, ou seja dá mais plasticidade à argila;
e no forno ela vai ajudar a dar liga.

assim que terminar e queimar o forno, compartilho com vocês esse processo.

mês de agosto foi um mês de articulações
iniciei o mês participando da 22ª Jornada da Agroecologia, que aconteceu em Curitiba
um evento feito pelo povo, pelo campo e pela cidade, articulado por mais de 60 movimentos sociais
é uma semana que o Paraná respira luta na capital
foi a quarta participação da Cerâmica na Estufa, cinco dias de muita troca em torno da terra, aprendizados, e muita, muita conversa.

sinto que hoje em dia é tão raro encontrar um lugar onde as pessoas realmente escutam umas às outras, e a jornada é isso:
ouvir, conversar. estar atenta.

agradeço a tod_s que passaram barraca e deram um alô e fortaleceram a estufa.
ano que vem estou articulando com outros ceramistas uma queima do forno efêmero durante a jornada!

além da jornada, participamos também de um mutirão com o professor Otávio, professor de educação no Campo do IFPR, na Escola do Campo Santa Isabel, da 20ª Feira Regional de Sementes Crioulas e da Agrobiodiversidade em Teixeira Soares (PR), e na próxima quarta feira vamos estar presentes na 3ª Festa das Sementes Crioulas de Piên, na Escola do Campo Santa Isabel. Vai ter almoço coletivo, troca e partilha de sementes, oficinas com as crianças de 6 escolas do município.

e por aqui, queremos convidar a todos para a nossa primeira oficina pós-Japão

dia 1º de novembro, vamos realizar a nossa Oficina de Construção e Queima de Forno Efêmero – o primeiro da Estufa neste novo ciclo

será um dia inteiro aqui, construindo um forno efêmero do zero, colocando ele pra queimar… e claro, comendo bem: comida da roça, preparada com alimentos agroecológicos, vindos aqui da nossa terrinha e dos nossos colegas guardiões. Um encontro para aprender, compartilhar e celebrar – consolidando um turismo de base comunitária, enraizado na terra e nos saberes locais.

as inscrições abrem na primeira semana de outubro, e as vagas são limitadas – então, já deixa marcado no calendário 😉
a gente já está preparando o espaço com carinho
vai ser bonito demais

abraço a todos,
Gabi e Ivan

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