carta_01_junho.2025

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volto a essa terra molhada, 
de clima subtropical 
volto à chuva, 
à umidade
caminho como a névoa que sopra na mata atlântica remanescente, 
como a neblina que vai
e que volta

faz um mês que retornei 
foram oito meses em terras nipônicas, minha segunda casa 
voltar não tem sido fácil
quando estava lá sentia falta daqui —
agora que estou aqui, sinto saudades de lá.  
essa sensação é familiar, 
já a senti antes:
na primeira vez que vivi o Japão. 
foi lá que Ivan e eu imaginamos essa newsletter 
um relato mensal, resumindo o que vivemos na Estufa, com a Estufa,
uma carta às amigas e amigos que se importam com coisas comuns
um espaço para registrar e compartilhar os processos daqui,
uma forma de tecer e cultivar relações a partir das coisas que amo: 

cerâmica e agroecologia, 

barro e terra.

sejam bem vind_s.

outono,
dias chuvosos, 
e com eles, a abundância de cogumelos.
coletamos Boletus edullis, Lactarius uieticolor, Amanita muscária e outros tantos nesses últimos dias.
me faz lembrar a colheita de cinco anos atrás — mas, desta vez estamos mais preparados: Ivan e Maci fizeram uma desidratadora. 

nem todo ano é assim
cada colheita carrega suas variações

amigos agricultores comentaram que este ano será mais seco
vamos nos adaptando,
como os cogumelos

eles me inspiram todos os dias,
me ensinam a observar a mata, 
a estar-com-a-terra.
me ensinam a conviver.

foram eles que me inspiraram a criar: 

manteigueira-cogu e caneca-cogu

suas formas lembram chapéus,
suas texturas, porosas
seus tons, terrosos

são objetos que nasceram do chão úmido e do olhar atento — 
num exercício de estar-junto-com-os-cogumelos
o olfato e o olhar, a cada ano, ficam mais atentos 
é sentir a presença antes de ver, antes de cheirar. 

hoje, outono significa cogumelo.

mas nem sempre foi assim.
essa relação começou há cinco anos, quando retornei ao campo.
na época, comecei a coletar cogumelos selvagens porque pessoas de uma cidade próxima coletavam, 
hoje, eles viraram nossos amigos — o pessoal do Amuscária Fungi, de Tijucas do Sul.

desde então, esse reino me ajuda a ver a paisagem 
a prática de observar a paisagem vem com curiosidade, estudo, dedicação e tempo.

e para você, o que o outono significa? o que te traz? quais seus atravessamentos?
existe alguma imagem, cheiro, alimento ou gesto que te conecta com essa estação?

com menos de uma semana de minha chegada do Japão, participamos da IIª Conferência Municipal da Cultura.

foi doloroso…


Curso, pesquisa e exposição do Patrimônio Vivo de Piên

nas últimas semanas, Ivan, Maci e eu concluímos o curso Patrimônio Vivo: referências que conectam gerações e regiões. ministrado por Carol Mira e Lia Marchi. foram noites intensas, com muito diálogo. aprendemos sobre histórias que não são as do herói ou do vencedor. mas aquelas que costumam ser apagadas, que exclui sujeitos, expulsa os que aqui habitavam, que coloca uma monocultura em cima de cemitério indígena, enfim, estamos no Brasil rural profundo. ao mesmo tempo, aprendemos sobre a importância da coletividade para construir comunidade e autonomia – em contraste com a lógica capitalista, que trata tudo como mercadoria e as pessoas apenas como consumidoras. visando o lucro, explorando a terra, os humanos e os não-humanos, e tirando a potência, a autonomia. me fez perceber o quanto festas e práticas coletivas nos afetam e como elas fazem falta quando desaparecem. saio do curso com orgulho do que estamos construindo aqui na Estufa. E orgulho também da 3ª festa da Semente Crioula: uma festa subversiva, do povo para o povo. e no fim do curso, vamos fazer uma exposição fotográfica com os trabalhos — isso compartilhamos com mais detalhes na próxima newsletter.


a volta ao ateliê tem sido aos poucos. nas últimas semanas, estive limpando, organizando e planejando. o torno foi para o conserto, e voltei a fazer acordelados — aquelas cobrinhas de barro que são adicionadas aos poucos no barro, num exercício de sentir o barro, sem desenhar antes o que fazer, apenas conversar e fazer. está saindo algumas coisas bem legais. geralmente as ideias aparecem nesse momento e depois começo a colocá-las em outras peças.


mas a volta mais intensa ocorreu na cozinha: fizemos macarrão caseiro com amigos e família, doce com a abóbora da vizinha, pão de batata doce que aguardava nosso retorno, mandioca da roça, bolo de limão cravo e muito pinhão…

receita base lactarius:
cogumelos salteados de neblina

. alho
. Lactarius quieticolor frescos
. sake mirin
. shoyu
. manteiga

tudo à gosto

com um pincel seco, limpe delicadamente os cogumelos coletados — nunca lave com água amasse um dente de alho (ou mais, se você ama alho), e refogue com um pouco de manteiga, até soltar o aroma adicione os cogumelos cortados e, em seguida, o sake mirin o cogumelo vai soltar o próprio líquido — deixe cozinhar por cerca de cinco minutos ao final, adicione um pouco mais de manteiga e shoyu. dica: não exagere na manteiga no início — os cogumelos absorvem e o sabor se confunde. essa base é simples e versátil: usamos em brusquetas, macarrões, arroz, ramen, ou como recheio de omeletes e panquecas. também é possível guardá-los em compotas por alguns dias na geladeira. deixe a colheita e sua vontade guiarem o prato.

Em cada newsletter, além das notícias do campo, das Estufa e uma receita, pretendo compartilhar um pequeno calendário com os próximos eventos. por enquanto, deixo o primeiro convite para o evento que mais gosto de participar:

22ª Jornada de Agroecologia

  • 06 a 10 de agosto de 2025

Campus Politécnico da UFPR, em Curitiba. 

Queremos também aproveitar essa newsletter para compartilhar o filme-poema produzido na Estufa Cultural: estar-com-a-terra: 

 Peças da estação: 

caneca-cogu: de R$125,00 por R$100,00

manteigueira-cogu: de R$175,00 por R$150,00
(desconto válido para quem recebe essa newsletter — até o fim de agosto ou enquanto houver unidades)

para encomendar, me escreva por e-mail ou instagram.

Até a próxima carta,

Gabi e Ivan.

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3 respostas para “carta_01_junho.2025”

  1. Avatar de Marina
    Marina

    Que carta maravilhosa! Uma leitura deliciosa. Me senti um pouco mais próxima de vocês e da vida na Estufa. Mesmo estando na World Wide Web para ler, a escrita de vocês conseguiu me deixar mais desconectada da loucura do mundo virtual que nos atravessa diariamente para estar mais conectada com o mundo da Estufa, que é a antítese da hiperconectividade… Me fez lembrar a necessidade de estarmos cada vez menos conectados no online e cada vez mais no offline.
    Essas foram as primeiras sensações proporcionadas pela escrita de vocês , amigles, mas também preciso dizer sobre a sensação de alegria ao ler sobre a colheita de cogumelos. Que coisa maravilhosa! Fiquei curiosa para saber mais sobre a desidratadora e com vontade de experimentar a receita.
    Por fim, gostaria de parabenizá-los por dois feitos admiráveis… Primeiro pela coragem em estarem envolvidos politicamente no cenário cultural de Piên – só posso imaginar a quantidade de paciência e estômgo necessários para estar presente na Conferência relatada. Segundo, queria parabenizá-los pelo CineNômade – uma iniciativa incrível. Queria poder estar mais perto para participar… Quem sabe vocês não animam trazê-lo para São Carlos/SP… Estão mais que convidados!
    Obrigada por essa carta, Gabi e Ivan! Já animada para ler a próxima 🙂
    Grande abraço.

  2. Avatar de Sérgio

    Oi gente, que carta linda. São tantas camadas de afeto e atenção, da observância das coisas, enfim. Obrigado!

    Respondendo a pergunta “e para você, o que o outono significa? o que te traz? quais seus atravessamentos?” pra mim o outono é o início do ano. No meio dele faço aniversário. Sempre faço algum ritual no fim dessa estação , no solstício de inverno. Acho que o outono é justamente uma preparação para o inverno. Tipo, tá na hora de começar a pensar em melhorar os agasalhos do corpo-mente. E depois que conheci essa música nunca deixei de associar o outono a ela ( e casa tão bem com o início da carta):

    Bate outra vez
    Com esperanças o meu coração
    Pois já vai terminando o verão
    Enfim
    Volto ao jardim
    Com a certeza que devo chorar
    Pois bem sei que não queres voltar
    Para mim
    Queixo-me às rosas
    Que bobagem as rosas não falam
    Simplesmente as rosas exalam
    O perfume que roubam de ti, ai

    Um forte abraço daqui de onde a maresia deixa tímidas as geadas.

  3. Avatar de Bernardo de França da Silva
    Bernardo de França da Silva

    Boa noite, queridos!
    Comecei a ler a carta no trabalho, mas achei melhor degustá-la em casa, com calma, após um chocolate quente. Fiz bem!
    Acho muito legal isso de narrar em versos livres, como no inicio da carta. Minhas ultimas tentativas de poesia tem sido nessa pegada…Gostei também da maneira que vocês se marcam na escrita. É como se a gente soubesse com quem tá falando rsrs.
    Essa ideia de fazer uma carta contando as novidades da estufa é fantástica. Porque as vez, na correria, a gente acaba perdendo tanto detalhes né? Digo a gente a gente mesmo: a gente que conta e a gente que fica sabendo.
    Apesar de já conhecer a fotografia de vocês, eu sempre fico de cara com as fotos que vocês tiram!! Tá dooooooido! A do Maci segurando (o que julgo ser) a desidratadora mesmo tá um deboche! Aliás esses dois inventam coisa, ein?!
    Muito interessante o processo de criação com os acordelados, Gabi. Nunca tinha ouvido falar. Além de tudo, achei uma palavra muito bonita rsrs.
    O outono me faz lembrar aquela luminosidade que só ele tem. Aqueles fins de tarde que o mundo inteiro parece estar em harmonia e que não há não haver mais fome e bolsonarismo.
    Fiquei muito feliz lendo essa carta conjunta. Já ansioso para o cineclube da semana que vem em terras desterrenses, e para recebê-los aqui em casa.

    Um afetuoso abraço do Bê!