
agricultura e cerâmica: são atividades que conversam?
por aqui, seguimos tentamos unir as práticas
a terra nos presenteia de diversas formas
um dos nossos objetivos é resgatar um tempo anterior à cisão entre arte e utilidade
quando cerâmica e alimento vinham das mesmas mãos
será possível? é um caminho a percorrer
desejo unir modelagem, queima e culinária como prática de resistência, memória e celebração.
nesse último mês, voltei aos estudos com mais intensidade
me dedicando especialmente ao estudo do solo – em diferentes frentes, seja pensando tanto na agricultura quanto na cerâmica
para isso, tenho lido dois livros:
– Manual do Solo Vivo, de Ana Primavesi
– Wild Clay : Creating Ceramics and Glazes from Natural and Found Resources, escrito por Matt Levy, Takuro Shibata e Hitomi Shibata

fiz o teste da argila coletada mês passado com o Ruvi e o Maci – e ela não fundiu!
fiquei muito feliz com isso, pois tinha medo de que ela derretesse, mas isso fez eu aprender mais sobre o local onde coletei a argila.
Quando a gente encontra uma argila, é importante se perguntar:
quem é a rocha-mãe?
é ela quem nos dá pistas sobre as características do barro que está ali ao lado, essa argila foi coletada próxima a uma pedreira de serpentinito, encontrada aqui em Piên nas duas Campinas. nos bairros da Campina dos Crispins e Campina dos Maia. campina é um tipo de ambiente sem árvores, de vegetação é baixa e rasteira – um campo
nesses dois bairros brotam essas duas pedreiras, de serpentinito. a vegetação nessa área é bem diferente do restante da região, ali há também uma grande diversidade de plantas e animais.
serpentinito é rico em magnésio, e no local da coleta, também achamos talco (que é rico em magnésio), um mineral que muitas vezes é adicionado à massa cerâmica para dar resistência ao choque térmico – especialmente em queimas como a de raku. Costumo adicionar uma porcentagem de talco na massa, mas agora, ao invés de talco, vou testar essa argila coletada
também estou curiosa para saber se ela funde a 1300 graus
aliás, o pó dessa rocha também é usado na agricultura, para aumentar os níveis de magnésio no solo
e para terminar: pintei a parede do ateliê com barro coletado, rico em ferro, lindo lindo.

receita do mês: tinta de barro!
dessa vez, a receita envolve argila
Ingredientes:
• barro coletado
• 10% de cola de amido (% em referência ao barro)
• água até dar o ponto (a textura da parede vai influenciar na quantidade de água)
⸻ Passo 1: fazendo a cola de amido
Aprendi a fazer essa cola quando andava colando uns lambes por aí. você pode usar amido de milho, araruta, polvilho doce ou azedo — o que tiver em casa.
• ¼ xícara de amido
• ¼ xícara de água em temperatura ambiente (para dissolver o amido)
• ¾ xícara de água fervente
• 1 colher de vinagre
Ferva os ¾ de xícara de água. Enquanto isso, dissolva o amido na água fria. Com o amido diluído, adicione à água fervente e mexa por cerca de 5 minutos em fogo baixo. Depois, adicione o vinagre. Deixe esfriar antes de guardar num pote. Na geladeira, dura até 15 dias.
⸻ Passo 2: preparando a mistura de barro
• Coletar o barro
• Secar completamente
• Peneirar
• Adicionar água aos poucos, até formar uma pasta
• Adicionar a cola de amido (10%) e misturar bem
ao invés de amido, você também pode usar cola branca, mas a cola de amido tem seu charme — é uma receita que tudo vem da terra. Uma mistura de roça com argila 🙂
as proporções? Eu vario muitas vezes por aqui, faço receitas como minha vó: no olho. e depois vou ajustando.



Comecei também outro processo: fermentação com palma

iniciei o processo de mucilagem com palma
ela foi colhida aqui no quintal de casa — plantei há uns 3 anos com meu avô. cortei em pedaços e coloquei num baldão com água, e estou deixando fermentar pelos próximos dias.
depois da fermentação, a mucilagem vai ser usada no embarreamento de um forno: ela vai dar a liga, fazer as partículas se entenderem, se conhecerem, pra então todo mundo, junto e misturado, virar um forno.
E pra que serve a mucilagem de palma?
pelas minhas pesquisas, ela pode ser usada na tinta das paredes, junto com a cola de amido, pra dar mais resistência à água;
ela deixa a argila mais gorda, ou seja dá mais plasticidade à argila;
e no forno ela vai ajudar a dar liga.
assim que terminar e queimar o forno, compartilho com vocês esse processo.
Reunião de Antropologia do Mercaosul (Bahia)
Como a pesquisa é uma das atividades que sustentam as nossas atuações aqui na Estufa, não posso deixar de contar como foi a minha experiência na Reunião de Antropologia do Mercosul, na Universidade Federal da Bahia, em Salvador.
Preparei uma apresentação com uma mínima parte da minha pesquisa de tese, que ficou distribuída assim: primeiro eu falei um pouco sobre a minha pesquisa no Japão, em especial, na parte em que eu visitei lojas e acervos de gravuras ukiyo-e; depois dessa introdução, falei um pouco mais sobre como essas gravuras maravilhosas influenciam minha tese e meus desenhos etnográficos; em seguida, mostrei como pretendo combinar a poética ukiyo-e com a poética das ilustrações do projeto de pesquisa coletivo e internacional do Feral Atlas, dando como exemplo um desenho que havia feito especialmente para mostrar no evento.

Fiquei feliz com o resultado da apresentação, mas, honestamente, senti que o evento em si deixou um pouco a desejar. Não é nada fácil preparar uma apresentação dessas – e eu, particularmente, me dedico bastante -, nem viajar centenas de quilômetros, saindo do sossego daqui da Estufa. Por isso, eu esperava um pouco mais de reciprocidade nas interações e trocas no evento. Infelizmente, minhas expectativas foram frustradas.
Ossos do ofício. Nem sempre os encontros são frutíferos. O importante é que estou confiante com o andamento da pesquisa e muito ansioso – no melhor sentido da palavra – para começar a escrita propriamente dita da tese. Antes disso, pretendo ler ao menos 4 livros:

– Paisagens em transe

– Arrabalde

– Pensamento ecológico

– House Sketching
O primeiro já estou lendo e está na reta final. É o livro que resultou da tese do antropólogo Thiago Mota Cardoso, professor do Departamento de Antropologia Social da UFAM. Thiago é parceiro de pesquisa e fez um trabalho exemplar com os Pataxó de Barra Velha – BA. Sua tese, além de possuir um conceito pataxó que inspira minha própria pesquisa – o saber andar -, recebeu menção honrosa do Prêmio CAPES de Tese. Temos que andar com quem manja…
Arrabalde é o livro mais recente do bilionário-cineasta João Moreira Salles. Aceito as críticas, mas reconheço que gosto muito de suas produções. Já li dois capítulos desse livro sobre suas andanças pela Amazônia paraense e quero terminá-lo antes de iniciar minha própria jornada na escrita da tese.
O Pensamento Ecológico do Timothy Morton foi parcialmente lido durante minha estadia no Japão. Larguei a leitura porque, em dado momento, ele me pareceu tomar caminhos muito distantes dos trajetos que pretendo trilhar. Ainda assim eu sinto que preciso retornar ao livro e concluí-lo. Minha intuição é de que a discussão sobre sua ideia de malha, em comparação à ideia de malha de Tim Ingold pode ser frutífera. Vamo vê…
Por fim, House Sketching é o livro do sketcher Albert Kiefer. Desde que assisti às suas aulas no Domestika, em 2023, sinto meus traços soando cada vez mais próximos à poética que ele mesmo pratica e propõe. Nesse livro, Kiefer aprofunda seus ensinamentos e reflexões sobre o desenho de casas, o que, acredito, será muito útil para esse meu outro modo de d-escrever: o desenho etnográfico – ampliando o foco para paisagens e infraestruturas multiespécies.
Nesse sentido, o exercício de preparo da apresentação para a RAM foi, por si só, bem proveitoso. Isso sem contar a parte mais legal da viagem: os quase 10 dias que convivi com meu amigo-irmão Marcus Bernardes e sua família querida no Recôncavo Baiano. Entre Berimbau, Coração de Maria e uma breve passada por Cachoeira, posso dizer que pude descansar e recuperar as energias e o ânimo.
Quero fazer dois destaques especiais sobre essa viagem:
Primeiro: não curto muito essa expressão nesse contexto, mas a real é que me apaixonei por Cachoeira. É nessa cidade que fica o campus com as faculdades mais legais da Universidade Federal do Recôncavo Baiano: de ciências humanas e artes. Além disso, a cidade tem uma atmosfera sensacional: uma cidade “pequena” mas com uma vitalidade maravilhosa: gente ocupando as praças, as ruas, os campos de futebol, os restaurantes, as lojas, as feiras, o rio Paraguaçu… Ficou um puta “gosto-de-quero-mais” que pretendemos saciar nas festas de São João no ano que vem;
Segundo: as feiras, tanto de Coração de Maria como de Berimbau. A visita à feira de Berimbau, que fiz no sábado – véspera da minha despedida – com o seu Amilton, pai de Marcus, foi especialmente especial. Ali eu não apenas entendi, mas senti como feiras são potentes dispositivos sociais: os encontros cotidianos com conterrâneos, mediados pelas trocas de alimentos e outras coisas produzidas por eles próprios emana familiaridade, aconchego e pertencimento. Eu poderia passar horas aqui escrevendo sobre reflexões que desencadearam daquela meia hora que fui guiado por seu Amilton na feira de Berimbau, mas vou poupar vocês desse lero-lero. Mas se quiserem um conselho, aqui vai: visitem, calmamente, feiras de rua. E, se puderem, visitem feiras como essa de Berimbau, na Bahia mesmo. Quero saber se vocês vão sentir o que eu senti: que a Bahia é antiga, mais antiga que a própria Bahia…






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mês de agosto foi um mês de articulações
iniciei o mês participando da 22ª Jornada da Agroecologia, que aconteceu em Curitiba
um evento feito pelo povo, pelo campo e pela cidade, articulado por mais de 60 movimentos sociais
é uma semana que o Paraná respira luta na capital
foi a quarta participação da Cerâmica na Estufa, cinco dias de muita troca em torno da terra, aprendizados, e muita, muita conversa.
sinto que hoje em dia é tão raro encontrar um lugar onde as pessoas realmente escutam umas às outras, e a jornada é isso:
ouvir, conversar. estar atenta.
agradeço a tod_s que passaram barraca e deram um alô e fortaleceram a estufa.
ano que vem estou articulando com outros ceramistas uma queima do forno efêmero durante a jornada!
além da jornada, participamos também de um mutirão com o professor Otávio, professor de educação no Campo do IFPR, na Escola do Campo Santa Isabel, da 20ª Feira Regional de Sementes Crioulas e da Agrobiodiversidade em Teixeira Soares (PR), e na próxima quarta feira vamos estar presentes na 3ª Festa das Sementes Crioulas de Piên, na Escola do Campo Santa Isabel. Vai ter almoço coletivo, troca e partilha de sementes, oficinas com as crianças de 6 escolas do município.

Visita ao Clube do Livro de Piên
No dia 29, uma sexta-feira, fui recebido pelo pessoal do Clube do Livro de Piên, que tem como um de seus facilitadores o psicólogo Rafael Sallet. Já fazia um tempo que eu queria conhecer o Clube pessoalmente, e o encontro não poderia ter acontecido por motivo melhor: fui convidá-los a colar com a gente para construir coletivamente a 1ª Feira Literária Independente de Piên – FLIPiên. O pessoal me concedeu gentilmente a palavra no início da reunião e eu pude me apresentar, apresentar a Estufa Cultural, a Cerâmica na Estufa e convidá-los. Felizmente eles toparam colar junto. Fiquei feliz!
Depois disso, participei de uma das atividades do dia do Clube: a sessão do cineclube, que exibiu o filme Diários de um Adolescente (The Basketball Diaries), encerrando o mês em que abordaram o tema das drogas. Um filme muito forte e bom de se assistir e discutir. Fiquei ainda mais feliz por ver 1) o interesse do pessoal em se unir em torno de livros e filmes e 2) por participar do debate logo em seguida. Vida longa aos encontros potentes!

Minicurso de Escrita de Projetos Culturais
Em agosto a gente se reuniu com a Secretária de Cultura. Quando digo “a gente”, estou falando do pessoal do grupo do Patrimônio Vivo, responsável pela pesquisa patrimonial que já mencionamos antes. A pauta: apresentar nosso pré-projeto – o fotolivro contendo nossas pesquisas: qualificadas e aprofundadas, a fim de servir como a gênese de um material bibliográfico sobre a cultura de Piên.
Sentar na mesa com o poder público – sobretudo de uma gestão controladora e monopolista – é sempre um desafio. Mas dessa somos um coletivo relativamente forte e nossa demanda é bem fundamentada e legítima. Mesmo assim, foi preciso ceder aqui e ali e ainda sem ter a certeza de que o pacto vai ser sustentado: é uma estratégia comum desse tipo de fazer política: deixar a nevoa da incerteza pairando…
Foi uma reunião com sabor de empate, mas serviu para fortalecer uma ideia a ponto de torna-la evento: ministrar um Minicurso de Escrita de Projetos Culturais, com ênfase na interpretação da legislação. Um povo que sabe seus direitos é um povo que criar muito mais resistência, muito mais fricções às posturas autoritárias dessa nossa política patrimonialista e clientelista.
O curso ficou assim:
Turmas e datas
• Turma Presencial (Piên/PR): 16, 18, 23 e 25/09 — 18h30–20h30 (4×2h) – Biblioteca Municipal de Piên
• Turma Online (Google Meet): 20 e 27/09 — 13h–17h (2×4h)
O que você vai aprender
• Ler edital e traduzir critérios em texto
• Escrever um projeto cultural com título, resumo, justificativa, objetivos, cronograma
• Montar orçamento e pensar contrapartidas
• Documentação e noções de prestação de contas
Facilitador: Ivan Gomes — produtor cultural radicado em Piên (PR), antropólogo (UFSC), doutorando e pesquisador. Experiência em escrita e execução de projetos (LPG, Aldir Blanc) e acadêmicos (mestrado/doutorado; pesquisa na Universidade de Osaka financiada pelo MEC).
Inscrições (Form): https://forms.gle/jjkgzoaeWwrsR4CQ9
Local do presencial: https://maps.app.goo.gl/bTvVL7sjGE5Pt5Ce9
Na próxima newsletter eu conto como foi: se conseguimos transmitir um tanto dos nossos saberes sobre como ser a mosca que pousa na sopa deles.


e por aqui, queremos convidar a todos para a nossa primeira oficina pós-Japão
dia 1º de novembro, vamos realizar a nossa Oficina de Construção e Queima de Forno Efêmero – o primeiro da Estufa neste novo ciclo
será um dia inteiro aqui, construindo um forno efêmero do zero, colocando ele pra queimar… e claro, comendo bem: comida da roça, preparada com alimentos agroecológicos, vindos aqui da nossa terrinha e dos nossos colegas guardiões. Um encontro para aprender, compartilhar e celebrar – consolidando um turismo de base comunitária, enraizado na terra e nos saberes locais.
as inscrições abrem na primeira semana de outubro, e as vagas são limitadas – então, já deixa marcado no calendário 😉
a gente já está preparando o espaço com carinho
vai ser bonito demais

FLIPiên – Feira Literária Independente de Piên
E antes de me despedir, quero divulgar mais uma iniciativa popular e coltiva:








Façam um esforço! Venham, divulguem! Vamos promover os encontros de gente que quer cultivar a imaginação – sem o exercício dessa habilidade, vai ser difícil criar e viver modos de viver que respondam a essa bagunça maldita que o capitalismo se esforça em perpetuar.

abraço a todos,
Gabi e Ivan

